quarta-feira, 2 de abril de 2014

OS INSTITUTOS SECULARES

OS INSTITUTOS SECULARES

Em síntese: Os Institutos Seculares são associações cujos membros fazem a profissão, o juramento ou a promessa de castidade, pobreza e obediência, mas não vivem em comunidade nem usam hábito próprio. Ao contrário, vivendo com a família ou no mundo, inserem-se nos ambientes de trabalho mais diversos (bancos, escolas, fábricas...), onde dão o testemunho do Evangelho por sua conduta coerente e firme, como também por sua palavra. Esta forma de apostolado foi suscitada pela onda de ateísmo eindiferentismo religioso que começou a se propagara partir da Revolução Francesa (1789) e até hoje caracteriza a sociedade ocidental. Os Papas, desde Pio XII (1947), têm favorecido os Institutos Seculares, definindo as linhas gerais de sua estrutura. Cada Instituto Secular tem suas Constituições próprias, que determinam com precisão as suas modalidades de ser e agir.

Existe na Igreja uma forma de vida consagrada a Deus que não chama a atenção por alguma característica de veste, de habitação, de trabalho..., mas que é densa de espiritualidade e ideal: é a dos chamados "Institutos Seculares" (IS), isto é, institutos cujos membros vivem no século ou no mundo, até mesmo no seio de sua família, professando os três votos de castidade, pobreza e obediência.

As páginas subseqüentes examinarão de mais perto esse singular tipo de vida.

1. INSTITUTOS SECULARES: ORIGEM

Pode-se dizer que no próprio Evangelho se encontram as raízes da vida consagrada pela prática dos conselhos evangélicos. Com efeito; Jesus disse ao jovem rico: "Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céu; a seguir, vem e segue-me" (Mt 19,21).

Com estas palavras, Jesus não quis instituir uma categoria de "perfeitos" superiores aos cristãos comuns. Todos são chamados à perfeição, como decorre de Mt 5,48: "Sede perfeitos como vosso Pai Celeste". Mas quis Jesus que alguns cristãos, de maneira mais estrita, reproduzissem o modo de vida do próprio Mestre; daí a recomendação de renúncia aos bens materiais em Mt 19,21 e à família em Mt 19,12; 8,19s.
Desde cedo as palavras do Senhor suscitaram seguidores. Tal foi o número de homens e mulheres movidos pela exortação de Cristo que aos poucos foi sendo regulamentado tal tipo de vida; apareceram no século IV as primeiras Regras Monásticas, acrescentando à pobreza e à castidade a prática da obediência. A vida comunitária ou cenobítica prevaleceu sobre a vida eremítica. Assim se constituiu o que se chama "a Vida Religiosa consagrada", a qual foi assumindo modalidades sempre novas através dos tempos. No século XII, os franciscanos e os dominicanos instauraram algo de muito significativo, ou seja, as Ordens Terceiras ([1]). Estas constavam de leigos que viviam, no mundo ou em família, a espiritualidade do respectivo fundador; eram Ordens Seculares, cujos membros procuravam adaptar sua conduta de vida às normas baixadas pelos mestres.

No século XVIII, a Revolução Francesa (1789) desencadeou forte onda de laicismo ou de despojamento do sagrado. Em conseqüência, muitos Religiosos e Religiosas puseram de lado as insígnias que os pudessem caracterizar aos olhos do mundo e passaram a viver os votos religiosos de maneira imperceptível aos estranhos. Essa nova praxe se protraiu durante o século XIX, que foi uma época de materialismo irreligião marcantes: mosteiros e conventos foram extintos e muitos religiosos viram-se expulsos da respectiva pátria. Impôs-se então a necessidade urgente de recristianizar o mundo; isto levou muitos fiéis católicos a procurar um tipo de vida intensamente fiel ao Evangelho e, ao mesmo tempo, menos sujeita a ser hostilizada pelo mundo irreligioso. Foi então grande o número daqueles que renunciaram a qualquer sinal distintivo (veste, nome, vida comunitária...) para poder ter penetração nos ambientes mais avessos aos valores da fé. O segredo, observado até mesmo dentro da família, ficou sendo uma das características dessa nova modalidade de vida católica.

Tiveram assim origem grupos - não Congregações Religiosas - atuantes e fervorosos, mas destituídos de qualquer organização e legislação da parte da autoridade da Igreja. Visto, porém, que a nova modalidade merecia a benevolência de muitos leigos e Bispos, a Igreja, por seus órgãos competentes, se viu convidada a oficializar e regulamentar o novo tipo de vida consagrada. Os grupos tomaram o nome de Institutos Seculares, ou seja, Institutos de fiéis católicos imersos na vida do século, a fim de evangelizar a sociedade segundo novo estilo, correspondente às necessidades da época contemporânea.
Cada Instituto procurou redigir suas Constituições e os traços de sua espiritualidade: estes escritos foram submetidos à autoridade da Igreja, que os aprovou sempre que recomendado, e promulgou normas e orientações destinadas a manter viva a chama dos membros dos IS, cuja tarefa apostólica corria o perigo de ser desviada pelas correntes de pensamento existentes no mundo.

Foi no século XX que se definiu de maneira precisa a legislação relativa aos IS. Em 1947/48 Pio XII os aprovou e estimulou com diretrizes seguras, mediante a ConstituiçãoProvida Mater Ecciesia (02/02/47) e o Motu Próprio Primo Feliciterde 12/03/48.

Os Pontífices subseqüentes manifestaram-se muito favoráveis à nova forma de vida consagrada, como se depreende de testemunhos diversos, dos quais um é explicitamente citado às pp. 380s deste artigo.

O Código de Direito Canônico, promulgado em 1983, assim se pronuncia a respeito:

"Cân. 710 - Instituto secular é um instituto de vida consagrada, no qual os fiéis, vivendo no mundo, tendem à perfeição da caridade e procuram cooperar para a santificação do mundo, principalmente a partir de dentro.

Cân. 713 - § 1. Os membros desses institutos expressam e exercem a própria consagração na atividade apostólica e, como fermento, se esforçam para impregnar tudo com o espírito evangélico, para o fortalecimento e crescimento do Corpo de Cristo.

§ 2. Os membros leigos participam do múnus da Igreja de evangelizar, no mundo e a partir do mundo, com o testemunho de vida cristã e fidelidade à sua consagração, ou pela ajuda que prestam a fim de organizar as coisas temporais de acordo com Deus e impregnar o mundo com a força do Evangelho. Oferecem também sua cooperação, de acordo com o próprio modo secular de vida, no serviço à comunidade eclesial.

§ 3. Os membros clérigos, pelo testemunho de vida consagrada, principalmente no presbitério, são de ajuda aos co-irmãos por uma especial caridade apostólica e no povo de Deus realizam, com seu ministério sagrado, a santificação do mundo.
Cân. 714 - Os membros vivam nas condições do mundo, sozinhos, na própria família, ou num grupo de vida fraterna, de acordo com as Constituições.

Cân. 722 - § 1. A prova inicial tenha como finalidade que os candidatos conheçam mais adequadamente sua vocação divina, a vocação própria do instituto, e sejam exercitados no espírito e no modo de vida do instituto.

§ 2. Os candidatos sejam devidamente formados para viver segundo os conselhos evangélicos e instruídos a transformar inteiramente sua vida em apostolado, usando das formas de evangelização que melhor correspondam à finalidade, ao espírito e à índole do instituto.

§ 3. O modo e tempo dessa formação, antes de se assumirem pela primeira vez os vínculos sagrados no instituto, sejam determinados nas Constituições. Não durarão menos de dois anos.

Cân. 733 - § 1. Decorrido o tempo da prova inicial, o candidato que for julgado idôneo assuma os três conselhos evangélicos, confirmados por um vínculo sagrado, ou então deixe o instituto.

§ 2. Essa primeira incorporação, por não menos de cinco anos, seja temporária, de acordo com as Constituições.

§ 3. Decorrido o tempo dessa incorporação, o membro que for julgado idôneo seja admitido à incorporação perpétua ou à definitiva, isto é, com vínculos temporários a serem sempre renovados.

§ 4. A incorporação definitiva, no que se refere a certos efeitos jurídicos a serem estabelecidos nas Constituições, equipara-se à perpétua".

Ver ainda os cânones 724-728.

Como se vê, os Institutos Seculares estão hoje plenamente integrados no Corpo da Igreja e oferecem a muitos fiéis que não podem deixar de viver com os seus familiares (por serem arrimo de pai ou mãe ou por terem que assistir a pessoas enfermas...), a oportunidade de se consagrarem a Deus pelos votos de castidade, pobreza e obediência, vividos em comunhão com irmãos e irmãs colocados nas mesmas condições. É conveniente que esta oportunidade se torne conhecida. Dizia Pio XII que os IS são "a modalidade do testemunho de Cristo que a Igreja dá ao mundo, fazendo desabrochar, da riqueza de sua vida, um tipo de santificação e evangelização bem adaptado às necessidades da hora presente".


2. ESTRUTURA E ESPIRITUALIDADE DOS IS

2.1. Estrutura
É necessário distinguir dois tipos de IS: os de colaboração e os de penetração.
Os IS de colaboração realizam um apostolado público e específico, imposto a todos os membros ou à maioria deles: possuem também instituições próprias de apostolado. Muito se assemelham às Congregações Religiosas; todavia não usam hábito característico nem vivem em comunidade.
Os IS de penetração, ao contrário, não têm em mira alguma determinada obra apostólica, mas realizam seu apostolado pela sua inserção no mundo do trabalho leigo; os seus membros são profissionais de diversos tipos: professores(as), balconistas, assistentes sociais, jornalistas. enfermeiro(a)s, operário(a)s, donas de casa... São leigos que procuram cristianizar seu ambiente de trabalho e residência pela sua presença, pela competência profissional, pelos contatos amigos, pela ajuda recíproca... Não vivem em comunidade (salvas poucas exceções), mas têm uma Regra de vida e estão vinculados entre si por laços espirituais. Realizam um apostolado no mundo e com os meios do mundo.
Devem estimar grandemente as virtudes humanas, virtudes que o mundo ateu reconhece, mas sabe estar em baixa: enquanto são muitos os que se deixam aliciar pelo lucro desonesto, pela promoção baseada na ambição, pela desforra do orgulho ou do amor próprio ferido, pelos atrativos do amor descomprometido, os membros dos IS devemmanter-se isentos desses procedimentos, sobrepondo à desonestidade a retidão do caráter, o amor autêntico e a justiça.
Os Institutos Seculares de penetração são especialmente considerados nestas páginas.

2.2. Espiritualidade

O Concílio do Vaticano II referiu-se à espiritualidade dos IS nos seguintes termos:
"Os Institutos Seculares, embora não sejam institutos religiosos, comportam no entanto verdadeira e completa profissão dos conselhos evangélicos no mundo, reconhecida pela Igreja. Essa profissão confere a consagração tanto a homens como a mulheres, a leigos e a clérigos que vivem no século. Por isso tenham principalmente como objetivo uma total dedicação de si próprios a Deus em caridade perfeita. Conservem ainda sua índole secular, que lhes é própria e peculiar, para poderem exercer, com eficiência e por toda parte no mundo e como que a partir do mundo, o apostolado para o qual foram criados.
Convençam-se no entanto de que não poderão cumprir tamanha tarefa a não ser que os respectivos membros sejam cuidadosamente instruídos nos assuntos divinos e humanos, de forma que se tornem realmente fermento no mundo para o fortalecimento do Corpo de Cristo. Cuidem, pois, os Superiores seriamente de propiciar instrução espiritual, e de promover a ulterior formação dos respectivos membros dos Institutos Seculares" (Decreto Perfectae Caritatis n° 11).

A imagem utilizada é significativa: fermento na massa. Isto quer dizer que uma pessoa consagrada num IS tem o dever de ir ao âmago do seu ambiente de trabalho e de convivência para aí propor a mensagem evangélica, sem revelar explicitamente a sua identidade religiosa; esta há de se irradiar através da fidelidade aos compromissos decastidade, pobreza e obediência.
1)  Castidade. A renúncia ao matrimônio implica, na pessoa consagrada, a intenção de entregar-se, de maneira permanente, aos irmãos sem discriminação e com plena liberdade de coração. A castidade de uma pessoa solteira não extingue a capacidade de amar; ao contrário, dilata, porque permite mais plena doação ao Senhor Deus e aos irmãos. Fomenta-se assim o amor de benevolência, amor desinteressado de retribuição, voltado unicamente para o bem da pessoa amada.
2)  Pobreza. Esta, no caso dos Institutos Seculares, não significa renúncia a possuir, pois é a própria pessoa consagrada quem se deve sustentar no mundo, vivendo do seu trabalho, implica, porém, sobriedade no uso dos bens materiais, com recusa do supérfluo e da ostentação. É principalmente uma mudança de mente que, no caso, se requer, ou seja, a recusa da mentalidade consumista e hedonista, para dar lugar ao desapego interior. Disto se segue que a pessoa consagrada renunciará, por vezes, a comprar algo que legitimamente poderia possuir, a fim de aplicar a quantia respectiva em favor dos pobres. Diz o S. Padre João Paulo II:

"Aqueles que têm posses, devem adquirir o espírito de pobre; devem abrir o próprio coração aos pobres, pois, se não o fizerem, as situações injustas não mudarão. Poderá ser mudada a estrutura política ou o sistema social, mas, sem mudança no coração e na consciência, a ordem social justa e estável não será alcançada" (Alocução de 03/06/1980).
A pobreza consagrada implica ainda que a pessoa saiba fazer bom uso (evitando desperdício) do seu tempo, da sua saúde, da sua cultura e dos seus talentos espirituais.

3) Obediência. A pessoa consagrada num IS tratará zelosamente de obedecer às Constituições do respectivo Instituto, que orientam a espiritualidade e a conduta dos respectivos membros. Procurará, além disto, ter os ouvidos atentos aos apelos de Deus, que fala pelos sinais dos tempos, especialmente através dos irmãos mais carentes tanto no plano material como no espiritual. As Constituições não dispõem sobre a vida profissional e a vida familiar dos membros; como quer que seja, a pessoa consagrada procurará ser disponível para o serviço ao Reino de Deus que lhe possa ser solicitado pela Coordenação Geral do Instituto. Isto tudo fará que a pessoa consagrada se possa sentir identificada com a obediência de Cristo ao Pai: "Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou, e consumar a sua obra" (Jo 4,34; cf. Jo 6,38-40).


3. FORMAÇÃO
A formação ministrada aos membros dos IS não pode seguir calendário e horários rígidos, pois que não há vida comunitária no caso. Por isto as Constituições de cada ISdeterminam as etapas, o conteúdo e os métodos da formação dos respectivos membros.


4. CONCLUSÃO
Os Institutos Seculares merecem o apreço da Igreja e dos fiéis em geral. O S. Padre Paulo VI, na audiência geral aos leigos datada de 02/10/74, proferiu palavras que exprimem fielmente o sentido e o valor da vocação de leigo ou leiga consagrado(a) num IS:
"O homem contemporâneo ouve com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres; ou, se ouve os mestres, ê porque esses dão testemunho. Com efeito, ele sente uma repugnância instintiva por tudo o que possa parecer mistificação, fachada, comprometimento. Neste contexto, compreende-se a importância de uma vida que seja realmente eco do Evangelho.
O homem moderno, empenhado na conquista e na utilização da matéria, sente fome de outra coisa, sente uma solidão estranha. cristão plenamente consagrado a Jesus Cristo conhece um outro mistério, mais insondável do que a matéria: o mistério de Deus, que convida o homem a compartilhar a vida numa comunhão sem fim com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mistério de transcendência e de proximidade. Na verdade, o homem do século XX aspira a esta plenitude e diálogo pessoal, que a matéria lhe nega. Hoje, mais do que nunca, são necessárias testemunhas do invisível.
Os homens atuais são seres frágeis, que experimentam facilmente a insegurança, o medo e a angústia. Quantos se interrogam a si mesmos se são aceitos no ambiente em que vivem! Os nossos irmãos humanos têm necessidade de encontrar outros irmãos que irradiem a serenidade, a alegria, a esperança, a caridade, apesar das provações e das contradições que também têm de suportar. Ser testemunha da força de Deus que atua na assombrosa e renascente fragilidade humana não é alienar o homem, mas propor-lhe caminhos de liberdade.
Este deve ser o testemunho pessoal de todo batizado, de todo confirmado, leigo, religioso ou sacerdote. Mas os leigos são convidados a viverem-no de modo particular, atuando de acordo com a própria fé, mesmo no mundo dos negócios temporais, das suas famílias, da sua cidade, do contexto internacional, para constituírem, em união com todos os homens, crentes ou descrentes, um mundo mais digno de filhos de Deus. É trabalhando com os outros que eles descobrem, muitas vezes, todas as dimensões do apostolado.Não deverão esquecer que são chamados também a ajudar os irmãos para o seu encontro direto com Jesus Cristo. O testemunho que dão não é testemunho mudo. O mundo aguarda a passagem dos santos".

Os homens de nossos tempos, aparentemente auto-suficientes por causa de suas façanhas no plano da técnica, são freqüentemente inseguros e sequiosos de um ideal devida a que se possam dedicar plenamente; a sede de infinito e do Absoluto habita no coração de todo homem, por mais envolvido que esteja nos afazeres temporais, transitórios e relativos. Ora a pessoa consagrada num IS procura ir-lhe ao encontro no seu escritório, na sua escola, no seu banco, no seu hospital, nas casas comerciais, nas fábricas, nos ambientes de familiares, de amigos, de colegas... a fim de lhes levar discretamente a mensagem do Evangelho.

A propósito:

Uma entre Outras, por uma Leiga Consagrada. Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindisi, Rua Paulino Chaves 291, Porto Alegre (RS), 1990 (3a. edição).

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